Nessa longa estrada da vida, já lá se vão 42 anos, tenho vivido como comandado e tido momentos de comandante. Por meus princípios de vida, nenhuma das duas posições me parece mais fácil.
Apaixonado pela verdade, dita de frente, mas, e aí está o mais importante, na hora e no lugar certos, tenho topado com momentos extremamente delicados, sempre, no meu conceito, saindo-me bem.
Certa vez, trabalhando como comandado em um grande jornal, o desajeitado comandante, querendo que chegássemos cada vez mais cedo - eu e todos os demais - entregou-nos um radinho de pilha, com a seguinte recomendação.
"É para vocês ouvirem as resenhas (programas esportivos) e aproveitarem as notícias".
Preferi documentar minha resposta. Escrevi que ainda tinha - sempre terei - gosto e responsabilidde pelo que fazia e que me negava simplesmente passar para a lauda o que ouvia dos companheiros.
A informação poderia ser furada e, mais grave ainda, valia como roubar o trabalho dos outros, já que o jornal não lhes pagava. Feito isso, esperei o chefe estar sozinho e entreguei a ele minha posição. Juntamente com o radinho.
Em outro momento, suspenso por três dias - valia não ser escalado para o programa do qual participava - disse ao comandante, baixinho, no ouvido dele, que o dinheiro descontado dos dias de suspensão não me faria falta. Mas que minhas opiniões fariam falta aos assinantes.
O chefe disse que meus ganhos não sofreriam desconto e eu, sempre baixinho, disse a ele que o prejuízo dos assinantes, mais importante que tudo, continuva grande.
Estando comandante, em várias oportunidades precisei corrigir trabalho de alguns e discordar de atitudes tomadas por outros, pelas circunstâncias, sob meu comando.
Nunca, embora meu amigo Luiz Ceará goste de dizer o contrário, tomei minhas posições diante de outras pessoas, que nada tinham a ver com a questão. Nem com meus filhos agi assim. Fazia-o separadamente, num canto ou tomando um cafezinho.
A observação feita a dois, por mais severa que seja, provoca reação tranqüila e permite diálogos, muitas vezes esclarecedores. Estreita amizade e não deixa rancor. Ao contrário do que a feita com platéia.
Amo a verdade, seja qual for seu custo. Repudio as atitudes policitamente corretas, que muitas das vezes cheiram hipocrisia e covardia, resultem no lucro que resultarem.
Nada vale o preço de ver a imagem no espelho balançando a cabeça de forma negativa.
No futebol, chamam essas posições de "lavar roupa suja", o que dizem dever ser feito em casa, e eu concordo. Desde que em casa não falte sabão e a roupa suja não acabe sendo escondida em algum armário.
Sábado, depois da derrota para o Fluminense (3-0), Marcos, capitão, líder e excelente goleiro do Palmeiras, sem quem o time não estaria na boa posição que está, falou uma grande verdade, num momento considerdo politicamente incorreto.
Errou Marcos por preferir dizer a verdade. Talvez sentindo que não valia mais a pena insistir em lavar roupa suja em casa, vendo que ela continuava suja. Melhor errar falando a verdade, que assumir atitude politicamente correta, tantas vezes falsa.
Entre quem falou num momento que não devia e os que se sentiram ofendidos, mil vezes palmas para Marcos.
Mas aí, quando, para corrigir um erro, a roupa que continuava suja devia ser lavada em casa, por mais sabão que se precisasse gastar, vem o comandante maior a público para mostrar a todos o resultdo da lavagem.
Visivelmente irado, revelando-se fora de controle, Luxemburgo, o comandante, não se conteve em puxar as orelhas de quem achou válido, e expôs, de forma incorreta, seu melhor jogador, seu capitão, aquele que falou o que ele deveria ter falado para o grupo.
Se Marcos o fez em público e errou, tudo bem. Mas o fez. Botou a cara para bater num momento de emoção, que pode ser lida como de amor à camisa. Enquanto Luxemburgo o expôs à ira da torcida após três dias da roupa suja recolhida. De cabeça fria.
Entre Marcos e L:uxemburgo, quem cometeu erro maior?