Entre suas muitas e saborosas tiradas, Cilinho, técnico de primeira mão para, principalmente, trabalhar com jogadores jovens, costuma dizer que não tem coisa pior do que atacante que joga de cabeça baixa e garçom que trabalha só olhando para cima.
No campo, vendo de fora, acho que nada pior do que jogador fominha, aquele que parece usar viseira, incapaz de passar a bola para um companheiro melhor colocado para o arremate. Dizem que muitas vezes tal ocorre porque estão brigados. O que não deixa de ser burrice.
Prefiro uma outra hipótese, a da insegurança. O jogador não se sente titular, entende que o técnico está errado e acha que marcando gols o obriga a mudar de idéia. Faz um ou outro, mas joga fora o triplo das chances que o time cria.
Essa é a situaçãso que três jogadores do São Paulo viveram, separada e simultaneamente, nesse ano. Primeiro, foi Borges, que não admitia ser barrado por Adriano, um passageiro. Em seguida foi Hugo, que, embora em dose menor, continua fominha.
O terceiro, e maior de todos, é Dagoberto. A expectativa de sua contratação por longos meses, as contusões que enfrentou, a idéia, errada, de que seria a estrela principal de um time dirigido por um técnico ranzinza que dá prioridade ao coletivo, barrando-o, por isso, sistematicamente, tudo isso fez de Dagoberto um fominha irritante.
Por várias vezes ouvi, e concordei, considerações do tipo, "se o Dagoberto marcasse apenas a metade das bolas que tenta quando tinha companheiro melhor colocado, o São Paulo ganharia só de goleada.
Não sei se alguém conversou com ele. Não sei se mostraram a ele uma coletânea de tentativas erradas que fez e que irritaram torcedores e companheiros. Não sei se, até por falta de outras opções para Murici, Dagoberto sentiu-se titular e descobriu que quem serve bem a um companheiro tem igual ou até maior importância que ele.
O que me parece é que Dagoberto tirou a viseira, passou a levantar a cabeça, a olhar para os lados, a descobrir os companheiros que se apresentam e com isso deixou Hernanes em boa posição para marcar contra o Botafogo e Borges contra a Portuguesa. Dois gols em duas vitórias importantíssimas para o São Paulo nessa reta final.