Ele era um Rei em Santos. Em campo era uma Fera. Fora - Vasconcelos, um boêmio.
Em 1956 a camisa 10 do Santos pertencia a Vasconcelos, ídolo da torcida. Até quebrar a perna em uma disputa de bola. Aí foi substituído por um crioulinho de 16 anos, calado e de pernas finas, chamado Gasolina. Hoje conhecido por Pelé (revista Placar, 5/2/1971)
"Suas pernas finas, valentes, carregando seu corpo um pouco arqueado, brigavam o tempo inteiro, buscando vitórias, marcando gols, ajudando a fazer do Santos um time famoso, até hoje respeitado no mundo inteiro.
Válter Vasconcelos Fernandes, mineiro de Belo Horizonte, criado no Rio de Janeiro, craque, boêmio, ídolo, irresponsável, hoje um homem esquecido. O Vasconcelos em 1956 era dono absoluto da camisa 10 do Santos. O jogador maravilhoso, tão importante para o time, que fazia dos diretores quase escravos de suas vontades, tirando-o das prisões, dando-lhe bichos dobrados, aceitando, sem castigo, suas fugas das concentrações.
Até 19 de dezembro de 1956, quando quebrou a perna disputando uma bola com Mauro Ramos de Oliveira, zagueiro do São Paulo, ninguém teria a ousadia de pensar em substitui-lo. Ninguém podia admitir ver aquela camisa em outro corpo. Nem o negrinho calado, de pernas finas, que chamavam de Gasolina e que hoje é Pelé, o Rei dos mil jogos.
Boêmio, tinha um lema: "Façam o que eu digo e não o que eu faço". Nunca convidou um colega a acompanhá-lo nas farras que fazia, mesmo em vésperas de grandes jogos. Pulava janelas, ia sozinho, bebia, dançava, voltava de madrugada, jogava, fazia gols. O Santos ganhava.
No dia 24 de maio de 1956 alguns jogadores do Santos estavam na casa do goleiro Manga, comemorando seu adversário. Lá pelas tantas foram contar a Vasconcelos que Pelé estava com um copo de bebida na mão. Vasconcelos largou seu copo, foi até onde estava Pelé, ficou olhando sério e acabou dando um tapa na mão do companheiro, jogando o copo longe. Ele se considerava um dos responsáveis por aquele garoto que apenas começava como seu reserva.
Boêmio, não gostava de admitir trapaças com sua pessoa. Quando era ainda muito garoto, jogando no time de aspirantes do Vasco, vendo a torcida gritar para que jogasse no time de cima, soube que a Portuguesa Santista queria comprar seu passe. O técnico só permitiu quando Vasconcelos concordou em lhe dar uma comissão sobre as luvas. O negócio foi feito e até hoje o técnico deve estar esperando o dinheiro.
Aplaudido por todos
Da Portuguesa foi para o Santos, ameaçando engrossar se não vendessem seu passe. Na estréia deu a primeira demonstração de tudo o que seria. Contra a própria Portuguesa, fez três gols em quinze minutos e, logo em seguida, fingiu uma contusão, saindo de campo. Era um teste (que deu certo), foi aplaudido pelo público e elogiado pela diretoria. Daquele dia em diante já era o Vasconcelos com dinheiro e fama, vivendo intensamente, esquecendo-se do carinho que devia à mulher e à filha, acabando por ser abandonado
Boêmio, não tinha medo da polícia e zombava dos diretores que tentavam vigiá-lo nas suas noitadas. Muitas vezes foi preso por brigas e minutos depois estava livre. Um simples telefonema, e toda diretoria do Santos corria para socorrê-lo.
Uma noite estava sentado num cabaré, de costas para a rua, quando o diretor Augusto Saraiva entrou e rapidamente apanhou seu copo, provando para ver o que ele bebia. Vasconcelos estava de ressaca e bebia água tônica. Não pode conter o riso vendo a expressão de surpresa no rosto do diretor.
Ficava sem gravata onde todos estavam a rigor. Fez bons contratos e nunca lembrou de comprar um apartamento ou um terreno. Para ele a fama e a vida de grande jogador nunca teriam fim. Não pensou nisso nem mesmo em 53, quando foi desenganado por uma junta médica, que lhe dizia sofrer de moléstia cardíaca
(((amanhã o fim triste, que ainda deve valer como lição para muitos jovens de hoje)))