Vasconcelos, um boêmio (cont)
Triste, um pouco abandonado, proibido até mesmo de treinar, acabou encontrando dona Leonor, uma mulher mística, que numa mesa de toalha branca chamou seus guias para curá-lo com chá de alpite, agrião, azeite e outros ingredientes. Dois dias depois de começar o tratamento voltava aos treinos, assinando um documento que isentava o clube de qualquer responsabilidade
A pressão caiu de 19 para 12, o normal, e Vasconcelos só voltou a lembrar do seu coração "fraco" quando entrava na área, rasgando suas canelas, enfrentando botinadas.
Profissional, sempre exigiu tratamento igual ao dos outros. Em 1954, quando foi renovar seu contrato, lhe deram 130 mil cruzeiros velhos de luvas. Quando soube que Hélvio e Tite haviam recebido 250, esperou a melhor hora para reclamar. No intervalo de um jogo contra o XV de Piracicaba (0 a 0) disse que não voltaria a campo. Quiseram saber por quê e ele contou. Pagaram-lhe a diferença e ele fez os dois gols do Santos (2 a 1)
Profissional, nunca fugiu da "briga". Jogava contra o Corinthians e Julião já havia rasgado sua meia de tanta paulada. O juiz expulsou Vasconcelos de campo e, quando foi perguntado por que motivo, disse que era por pena, porque não queria vê-lo com as pernas quebradas. O juiz não podia expulsar ninguém do Corinthians.
Chegando ao fim
Profissional, estava sempre ao lado dos companheiros. Em 56 o Santos perdeu para o São Paulo e alguns diretores, no vestiário, criticavam Válter (que morreu na Espanha). Diziam que ele fizera corpo mole. Vasconcelos ouviu as críticas, jogou a toalha que enxugava o corpo no chão e espinafrou todos. Ninguém respondeu.
O técnico Lula também não respondeu aos chamados de dona Leonor no dia em que Vasconcelos começava a deixar de ser o dono absoluto da camisa 10 do Santos. Havia uma onda de suborno, o jogo era com o São Paulo e valia o título. Dona Leonor telefonou o dia inteiro para dizer que "aquele jogo ia dar cama para Vasconcelos". Lula só atendeu o telefone meia hora antes do jogo.
Não entendeu bem o que ela dizia, perguntou se Vasconcelos estava se sentindo bem, soube que sim e só mais tarde, quando o viu saindo carregado do campo para o hospital, pode entender tudo. Era tarde.
Tarde também para que Vasconcelos pudesse corrigir todos os erros. Sem mulher e sem filha, sem ter guardado dinheiro, ia deixando de ser Vasconcelos, ídolo da torcida, para ser um jogador marcado, correndo o mundo à procura da posição que deixava para o negrinho Pelé, muito antes do que qualquer um podia pensar. Pelé, o seu reserva, estava nascendo para mil jogos, mais de mil jogos. (JMA)
Anos depois, encontrei Vasconcelos fazendo bico num clube de carteado, na Praia do Gonzaga. Seu trabalho era ir comprar cigarro e lanches para os jogadores, ficando com o troco de gorgeta. Contou-me sobre suas andanças pelo interior do Paraná, histórias de arrepiar, que em breve trarei aqui.