Depois da derrota do Corinthians para o Palmeiras, por 1 a 0, em dezembro de 74, com o Morumbi lotado e todos levando a certeza de que ali acabaria o sofrimento da Fiel, sem títulos paulista - o mais importante da época - há 20 anos, Rivelino, apontado como culpado por uma grande maioria - um erro sem medida -, foi “esconder-se” na Praia Grande, naqueles tempos quase deserta.
Recebi a informação e, mesmo sem saber o local exato, corri para lá. Andei, de carro, a distância de aproximadamente um quilômetro, indo e voltando, várias vezes, até que ele, cansado de me ver procurá-lo, preso em casa, decidiu se apresentar. Nosso papo, como sempre, foi longo e amistoso.
NADA ALÉM DE UMA ILUSÃO
“O Corinthians diz que não, mas quer. Rivelino se cala, mas também quer. Um e outro, depois da chiação da torcida, acham que não há mais condições para continuarem juntos”.
“Depois de quinze dias de suspense, de julgamentos públicos, de condenações e absolvições, de evasivas e silêncios comprometedores, de explorações políticas, de seis horas de reuniões - três pela manhã e três à noite - o Corinthians acabou julgando Rivelino como único culpado pela perda do título de campeão paulista de 74 e o presidente Vicente Matheus, escondendo seu velho desejo de vendê-lo, anunciou esse veredito:
“Posso estar errado, mas minha única intenção é acertar para o bem do Corinthians. Como torcedor, eu também exigiria a venda do Rivelino, mas como presidente tenho de agir diferente. Ele é patrimônio do clube e não vamos negociá-lo. Ao contrário, queremos contratar outros craques como ele.
“Em quinze dias, da noite da perda do título à noite do julgamento, Matheus passou de acusador ativo a apaziguador sensato. Armou um esquema que lhe permite saídas por vários lados, dividindo seu grupo de amigos entre acusadores e defensores. Só se esqueceu de um detalhe que é também muito importante: depois de receber, sem defesa, todo tipo de acusação, de ser chamado de covarde, entregador, afinado, de ver acusações passarem do campo profissional para atingir o pessoal, o que Rivelino acha de tudo isso?
- O que é que você acharia se estivesse no meu lugar?
“Em agosto do ano passado, numa das muitas declarações de amor ao Corinthians, bem antes de ganhar o primeiro turno, cinco meses antes da frustrada noite de 22 de dezembro - depois de ficar sabendo que 70% da torcida corintiana não admitia nem ouvir falar na venda do seu passe, que para ela, se o Corinthians era bom sem ele, era melhor com ele - Rivelino disse que ficaria muito triste se um dia precisasse mudar de time, que entendia todas as exigências da torcida, que perdoava aqueles que gritavam contra ele, que amava o clube tanto ou mais que qualquer outro e que, se lhe dessem o direito de escolher a realização de um grande desejo, pediria para ser campeão pelo Corinthians. Só serviria pelo Corinthians. Não adiantava nem serviria com outra camisa. Nem com a da seleção brasileira.
“Falava de trocar a glória de ter sido campeão do mundo no México pelo momento que todos buscavam há quase vinte anos e mostrava o braço arrepiado. Falava de suas emoções, dos sonhos que tinha periodicamente, de como comemoraria e de como o dinheiro e os prêmios seriam desnecessários, se o título pudesse ser garantido. Disse que se parasse sem ser campeão pelo Corinthians, não se sentiria totalmente realizado
CHOROU SIM, NO CANTO
- E continuei pensando assim até o fim daquele jogo do dia 22. Não chorei em público, porque não sou de fazer cenas, de achar que todo mundo precisa registrar meus sentimentos para eles serem válidos. Chorei sozinho, em casa, num canto. Até depois do jogo eu pensei que entendia a torcida e que devia perdoar sempre aqueles que muitas vezes gritavam contra mim. Não tenho lido nada, nem ouvido nada, mas sei e sinto que fui xingado, avacalhado, que passei a ser o único culpado pela derrota e que pouca gente saiu para me defender. Tem coisas que a gente, por mais que tente, não consegue esquecer. Entende?
“Sem querer se aprofundar mais e achando que seria necessário, Rivelino não se entusiasmou nem pareceu decepcionado com a decisão revelada e a escondida que Vicente Matheus tomou em relação ao seu futuro no clube. Barba por cortar desde o dia da decisão, um pouco abatido, falando que ainda não era hora de falar nada. mas falando, revelava - com a concordância do pai - que depois da decisão tomada pela diretoria do Corinthians ainda faltava a sua decisão.
- Sou profissional do clube, tenho contrato até setembro, acho que vou me apresentar no dia marcado (dia 14), mas tudo isso ainda vai depender e uma conversa que eu e meu pai precisamos ter com os diretores. Muita coisa ainda precisa ser explicada.
((continua amanhã)))