A aflição que começava sentir com o aterrorizador silêncio que caia este início de tarde cá em casa, depois que os pirralhos deram adeus, acabou superada com a volta do Lucas, aquele pássaro preto que frequenta a jaboticabeira, outra vez começando a florir, deixando no ar um perfume sem igual.
Não sei se o Lucas voltou porque se incomodava com a algazarra dos pirralhos ou se por causa das flores e do perfume. Até onde sei, são os sabiás e não o Lucas que me irritam bicando as jaboticabas - sabará, casca fina -antes de se tornarem negras e saborosas.
Só sei que o Lucas soltou a garganta, afiadíssima, exatamente no momento em que atendi o telefone para receber dicas do amigo palmeirense, perdão, palestrino, como ele gosta de ser tratado, que se identifica como Boca Santa - "por só passar verdades".
- Aquino, disse o Boca Santa, essa história de diretor emprestar dinheiro ao clube não te faz lembrar dos "juros da Dona Maria"?
Faz sim, amigo oculto, disse a ele.
Há muitos anos, um presidente que também comandou o Palmeiras por largo tempo, emprestou certa importância ao clube e cobrava juros sobre o empréstimo, que ele dizia serem menores, mas que a oposição jurava serem maiores que os bancários.
Os inimigos diziam que o dinheiro emprestado era do próprio presidente, mas ele jurava ser da Dona Maria, sua irmã - o que, no caso, dá na mesma. Pois o certo é que todo fim de mês lá estava registrado na contabilidade o pagamento de juros à Dona Maria.
Um crime? Nunca disseram isso. Uma farsa? Talvez. Uma forma errada de admimostrar o clube? Na certa que sim. Dirigente não deve colocar - e muito menos tirar - dinheiro no clube como empréstimo. Qualquer empréstimo deve ser solicitado a um banco e logo contabilizado. Com todos os cifrões. Nos seus mmmmiiiinnniiimmmoooosss detalhes.
Se para mais não ser, para não dar o direito da dúvida aos opositores. Ainda mais, no caso de Gilberto Cipulo, sendo ele um conhecido advogado, homem afeito às leis.
Não sei, como disse o Boca Santa, com o canto suave do Lucas ao fundo, se o empréstimo feito ao clube por Gilberto Cipulo tem algo parecido com os juros da Dona Maria, mas acho que os palmeirenses, e também os palestrinhos, como o Boca Santa, merecem o mais rápido possível, uma ampla explicação. Documentada, naturalmente, porque advogados costumam dizer que o que não está escrito não está no mundo.
Fica só na maldita Boca Santa.