6
de
maio
A Ceia de Natal
Em dezembro de 73, o Serviço Social do Estado "descobriu" na favela Jardim Panorama, no Morumbi, um ex-goleiro do Palmeiras chamado Cláudio. A funcionária que o encontrou avisou a um amigo dela, jornalista da revista Placar, e ele, embora não fosse repórter, escalou-se para escrever a grande reportagem. Desistiu duas semanas depois e a tarefa me foi passada. Era véspera de Natal e, na bronca, caprichei na abertura, que por acharem forte demais para a época, pediram para invertê-la com os dois primeiros parágrafos.
A CEIA DE NATAL (título)
Na mocidade seu sonho era ouvir as palmas da torcida do Palmeiras, ilusão que durou pouco. Agora, velho, pobre, abandonado e faminto, deseja apenas que qualquer dos filhos o convide para uma refeição bem feita" (olho)
"Que se lembre, só chorou uma vez, há muitos anos, quando ainda era solteiro e foi abandonado por uma morena com quem gostava de dançar. Nem a morte do pai, a demolição do barraco ou o furto do seu violão o fizeram chorar.
- Não vale a pena chorar. Veja até onde cheguei e até onde pode chegar um jogador de bola. Eu acho que outros estão em situação pior.
"As pernas que ele mostra, levantando a única calça que tem estão cheias de ferids provocadas por mordidas dos ratos que infestam a favela Jardim Panorama, junto às mansões do Morumbi, São Paulo. As mãos que aceitam qualquer tipo de presentem tremem quando se abaixa para catar pontas de cigarros no ponto de ônibus Real Parque, mas no rosto inchado pela bebida os olhos não choram pela situação de mendigo, desempregado, favelado a que chegou como ex-jogador de futebol.
NINGUÉM ACREDITA
Não foi craque famoso, mas jogou em vários times e ganhou algum dinheiro. Gastou todo. Antes de se tornar jogador de futebol, foi pintor, polidor e sapateiro, mas agora não tem vontade nem saude para voltar a trabalhar. Ficaria contente se ganhasse uma caixa de engraxate; talvez conseguisse o bastante para dispensar o amparo do amigo Zequinha, a quem auxilia na pequena quitanda onde o estoque é quase sempre o mesmo: três pencas de banana nanica, dois pães dormidos, um pacote de biscoitos, quatro barras de sabão, um maço de velas, quatro pacotes de caixas de fósforo, uma sacola com chupetas e um garrafão de pinga.
- Meu nome é Cláudio Castro Aguiar. O pessoal ainda não acreditava que eu já fui jogador do Palmeiras e de outros times famosos. Só agora, depois que viram essas fotos, é que eles pararam de rir de mim.
"As fotos amareladas e roidas pelas traças e baratas estão, ironicamente, guardadas dentro da revista Moeda e Finanças, do serviço financeiro nacional, edição especial dos bancos, 1969. Ele as guarda com carinho e sabe de cor todas as escalações dos times.
- Esta fotografia aqui eu preciso guardar com muito cuidado. É do meu tempo no Guarani de Campinas, em 1944. Eu, Nenê, Tisiani, Fricoti, Silva, Pavuna, Bibiano, Carioca, Zuza (foi do Palestra), Piolim e Machadinho.
UM SONHO RÁPIDO
"Os olhos, que não choram quando fala da miséria em que vive, sorriem quando fala do passado onde poucos, quem sabe quantos, conseguirão localizá-lo. No São Paulo de Araraquara o time era com ele, Tereti, Tougelupe, Adolfo, Bode, Sinhô, Hélio, Ministro, Pedrinho, Tonhé e Andrade.
"Foi pentacampeão pela Ararense, em 1946, e antes de ir para o Palmeiras jogou no Estrela da Saúde, no Sudã,no Metalúrgica Paulista e no São Caetano, já como profissional. Entrou e saiu do Palmeiras como até hoje entram e saem dezenas de jogadores que um dia foram contratados com base no grande futebol que mostraram num único jogo. Cláudio fechou o gol num jogo São Caetano x Palmeiras e na outra semana estava assinando contrato por dois anos, ganhando 4 contos por mês para ser o reserva de Oberdã.
"Quebrou um dedo defendendo um chute de Og Moreira, o Toscanini, durante um treino no campo do Sírio, fez apenas alguns jogos, foi logo emprestado ao Guarani de Campinas, mas fala do time e dos companheiros com uma intimidade que contagia.
UM BOM MOMENTO
- Turma boa era aquela. O Caeira, o Junqueira, o Og, o Dacunto, o Jengo, o Ministrinho, o Fiume, o Viladoniga, o Lima, o Pipi. O Lima e o Pipi formavam a maior ala esquerda que já apareceu no futebol. Foi com eles que aprendi a gostar de me vestir bem. Eles andavam na linha e eu não podia ficar por baixo. Se eu pedisse ajuda à diretoria de um desses times, sei que não me negariam. Mas eu preciso de um intermediário. Outro dia encoantrei com o Caeira, ele demorou mas acabou lembrando de mim.
- Uma vez, quando eu estava no Guarani, jogamos contra o Fluminense do Rio, lá no antigo campo do Mogiana. Lembro-me como se fosse agora. O estádio já estava ficando vazio quando o juiz deu um pênalti contra o nosso time. O Russo foi bater, eu ameacei que ia pular para o lado esquerdo, ele meteu no direito e eu fui lá buscar a bola. Ele pensou que ia dar um banho-maria no Cláudio, mas enganou-se. Peguei a menina, fiquei com ela agarradinho e o juiz, com o relógio na mão, terminou o jogo. Se alguém duvidar disso pode ir perguntar ao Russo.
"Tem 56 anos e não parece um homem acabado. Nasceu na rua da Glória e teve uma infância igual à da grande maioria dos meninos pobres. Jogava bola, mas sua paixão era estudar. Trabalhava de dia e estudava à noite. - quando o pai morreu, precisou deixar a escola para fazer serões na fábrica. Completou o primário, entrou na escola de caligrafia, mas largou tudo e falou para sua mãe que assim nunca venceria na vida.
(parte I)

