7
de
maio
A Ceia de Natal II
DIAS DE FOME
- Hoje ainda aproveito bem a letra bonita que tenho. Sabe como é que ganho alguns trocados, sanduiches e outras coisinhas aqui no morro? Escrevo cartas de amor para os amigos apaixonados e eles me ajudam. Mas quando não tenho cartas para escrever nem uns trocados para pagar a condução até a cidade, a fome aperta tanto que tenho vontade de comer a sombra.
"Quando criança ia buscar comida no colegio dos padres, quando rapaz, com dinheiro, ia comer nas melhores cantinas do Brás; agora, guiado pela necessidade, descobriu que frequentar a Igreja dos Enforcados é uma boa maneira de matar a fome.
- Religião, tanto a dos cresntes quanto a católica dá sempre certo. O importante é se ter fé em Deus. Quando não posso ir na Igreja Católica vou na dos crentes, mas os crentes não favorecem a gente. A católica dá ajutório, dá comida. Os crentes têm a mania de beijar a gente e beijo de homem não é comigo. Outro dia fui na igreja do Brás, mas quando vi que lá tinha mais de mil marmanjos, fui saindo de lado. Mancada ter de ficar beijando aqueles homens todos. Se fosse para beijar algumas mulheres, até que eu ficaria.
"Casou-se em 1943 com dona Irani, "uma mulher muito doentia e muito geniosa", tem três filhos, mas nunca deixou de fazer algumas coisas que ele ele, como a maioria dos jogadores de futebol daquela época, gostava.
- Estes sapatos brancos que estou usando comprei novinhos por vinte cruzeiros. Nunca dispensei um par de sapatos brancos, mas nos bailes eu usava um de verniz salto carrapeta. Completava a pinta de galã da época com um belo paletó bem largo, um lenço de seda pura no pescoço e um chapeu tipo Carlos GArdel, caindo sobre um dos olhos.
MAIOR DERROTA
"Frequentava os bailes e uma vez ele e seu irmão Lúís disputaram até o fim um concurso de danças de salão no Estrela do Parque.
- Essas coisas a gente não esquece. O salão estava enceradinho que era uma beleza. Os outros pares foram sendo eliminados até que ficamos só eu e meu irmão Luís. A disputa estava dura, mas na hora do tango a minha dama me pisou o pé e fomos desclassificados. O prêmio ficou com meu irmão.
"Por onde massou deixou a fama, comum a muitos jogadores da época, de quem gostava de comer bem, vestir-se na moda e frequentar festas. Gostava de cozinhar. mas nos últimos anos o máximo que tem conseguido é ferver um pouco de macarrão numa panela que o Zequinha lhe empresta.
O MELHOR AMIGO
"Jogou muitos anos e depois que largou, já chegando aos 40, voltou à profissão de sapateiro com uma oficina na Vila Mazzei. O dinheiro foi ficando mais curto, a bronquite asmática cada vez mais lhe apertava o peito, os filhos, crescidos, foram tomando outros rumos, casando-se, mudando; a mulher, doentia, foi ficando com o gênio cada vez mais danado - e ele, levando muito a sério os conselhos dos médicos, foi morar no alto do morro, sem se importar com a sujeira, a favela, os ratos, com nada.
- Eu e minha mulher brigávamos muito. Há três anos o médico disse que eu precisava de ar puro para melhorar minha da doença. Eu sofro de falta de ar. O ar não vai nem para dentro nem para fora. Quando tenho a coisa eu rolo no chão, tiro os documentos e já deixo tudo na mão para que saibam quem eu sou e para que não pensem que sou um cachaceiro. Tomo umas e outras, que não sou nenhum santo, mas nunca me viram caído por causa dela.
"Na favela Jardim Panorama, ao lado direito da Marginal Pinheiro, logo depois da ponte Cidade Jardim, o ex-jogador Cláudio tinha até pouco tempo, além do ar que não é tão puro, um barraco e um violão. O barraco acaba de ser vencido e derrubado pelo progresso. Em seu lugar as máquinas trabalham dia e noite abrindo mais uma avenida larga. O violão, seu amigo fiel nas noites escuras, sem estrelas, foi furtado por um amigo infiel chamado Mineiro.
- Ele podia ter levdo tudo, até meu sapato branco, mas nunca o violão. Ele sabia que eu gostava de tocar um bolero ou um samba-canção quando a noite parecia como breu.
EM BUSCA DA SORTE
"Podia voltar para a mulher, mas tem medo do cunhado, com quem ela mora, "um homemviolento". Reclama que os filhos lhe dão 2 ou 3 cruzeiros quando vai procurá-los, mas reconhece que tudo isso acontece por sua teimosia. Já foi ao INSS, mas ficou sabendo que por não ter recolhido suas contribuições nos últimos tempos, não tem direito a nenhum auxílio. Esquece tudo isso para rir, contar casos e brincar com os meninos que sempre escutam suas histórias.
- Meninos, rezem pro Cláudio acertar na Loteria Esportiva. Eu não tenho dinheiro para jogar, mas quem sabe eu possa acertar mesmo assim. Esses meninos são bons, só precisam de uma oportunidade. A turma aqui quase toda é boa. Um ou outro malandro é que às vezes aparece para amolar. Outro dia mesmo, quando derrubaram meu barraco, uma vizinha, uma alma caridosa me chamou para morar no seu barraco. Eu fui, mas seu marido não entendeu a coisa e disse que eu só podia ficar se ele me tivesse chamado. Sabe como é, o barraco era muito pequeno.
BOM É VIVER
- Às vezes perguntam se para viver nessa situação eu não preferia morrer. Eu respondo que não. Adora a vida. Apesar dela estar ruim, prefiro viver do que morrer. Prefiro dormir nas pedras do que debaixo delas. Dizem que a morte é um descanso. Se é isso, prefiro viver cansado.
"Tem apenas uma calça e uma camisa, que tira quando vai dormir"para que não fiquem pintadas de sangue com as mordidas das pulgas".
"A última vez que comeu bem, num restaurante, foi no Natal do ano passado. Um dos filhos foi buscá-lo. Cláudio gostou e espera que este ano ele apareça novamente. Se não for um dos filhos, pode ser um dos poucos e velhos amigos.
"Ou mesmo qualquer um de vocês que agora ficaram sabendo que um dia existiu um goleiro chamado Cláudio Castro Aguiar.

