13
de
maio
Obrigado, “São Marcos”. Obrigado, Senhor.
A torcida do Palmeiras, com toda razão, foi dormir mais tarde ontem à noite e parte dela já na madrugada de hoje, após esperar e abraçar "São Marcos" na volta do paraíso chamado Recife, onde havia, mais uma vez, praticado milagres. Muitos nos 90 minutos de bola rolando e três na cobrança de pênaltis - que minha mulher vê como uma covardia.
Enquanto as torcidas uniformizadas, elogiadas por ele, ainda no estádio, gritavam obrigado "São Marcos", o goleiro Marcos, um santo filho, ouvia os agradecimentos de sua mãe, há mais de três mil quilômetros de distância, e, olhos e braços erguidos para o céu, repetia "obrigado Senhor, obrigado Senhor".
Naturalmente, não por o ter ajudado a parar o time do Sport nos 90 minutos, evitando, não um grande massacre, como disse Nelsinho, técnico adversário, mas uma derrota, bem possível, não fosse ele, mas por, acima de tudo, ter defendido três pênaltis na cobrança final.
Para os torcedores, católicos, apostólicos, romanos, devotos de San Genaro ou simples ateus, agradecer a "São Marcos" era o máximo e tudo que podiam fazer nos segundos da explosão que os libertavam das duas horas, ou mais, de aflição, esperança e medo.
Para ele, Marcos, assim batizado, na certa, como homenagem ao santo Apóstolo, o obrigado, devia ser dirigido a alguém muito mais longe do que os torcedores saudados nas arquibancadas. Àquele que deu a ele força, determinação para enfrentar e superar todas as contusões, todas as dificuldades, incluindo a morte do pai, que vem colocando a prova sua fé, nos últimos anos. "Obrigado, Senhor".
Após toda festa para comemorar a passagem do Palmeiras para a fase seguinte da Libertadores, ouço que a diretoria, empolgada com sua atuação, pensa renovar o contrado de Marcos. Ouço, mas não quero crer que a reforma tenha a ver com o jogo de ontem. Seria uma atitude mesquinha demais. Por sua história no clube, Marcos, sem precisar estar "São Marcos", merece ficar no Parque Antártica até o dia em que disser "chega, vou cuidar dos meus bois", lá perto de Marília.
Ouvi também Luxemburgo agradecer a Guilherme Beltrão, diretor do Sport que falou pelos cotovelos, dizendo que ele havia sido o melhor centroavante do Palmeiras no jogo. Que centroavante? Que ataque? Que meio campo? Que defesa? Que time ?, se tudo chegou às mãos salvadoras de "São Marcos".
A torcida viu assim, os jogadores, correndo para sufocar Marcos, viram assim, quem deveria ver diferente?
Nos momentos de grandes vitórias como a de ontem no Recife, Osvaldo Brandão saia de fininho para o vestiário, calado, para não precisar dizer a quem os jornalistas deviam entrevistar. E aí seu silêncio valia ouro.

