26
de
maio
Nos tempos em que eu gostava de boxe
Hoje, se me chamarem para ver uma luta, sou capaz de brigar. Nos anos 72/73, escrevi vários trabalhos sobre a nobre arte e gostava. Este é um deles:
MANOBRAS PARA SER CAMPEÃO
Três vezes Joel precisou trabalhar das 18 às 20, quebrar o galho, sair correndo, lutar, comer um sanduiche e voltar correndo para passar o resto da noite entre máquinas e vagões. Entre o sonho e a dura realidade.
Correndo entre trilhos, como um garoto alegre que cabulou a aula, movimentando a cabeça e os braços, respirando compassadamente, desengatando máquinas, pulando entre vagões, orientando entradas e saídas de quase todos os trens que chegam ou passam pelo pátio de manobras da FEPASA (antiga Sorocabana), na Barra Funda, São Paulo, fazendo tudo isso durante 12 horas em cada 36, às vezes de dia, às vezes à noite, está nascendo, e pode morrer, um futuro campeão de boxe.
Quem não conhece seus os sonhos e a profissão de Joel Correa - funcionário público por necessidade, pugilista por escolha - e o vê correndo assim pensará que se trata de um louco. Para os companheiros de estrada, ele é um menino esforçado que precisa e merece ser transferido para outro serviço onde só trabalhe de dia. Para Pedro Galasso, seu técnico e orientador, ele é um aluno esforçado que aproveita as horas de trabalho para ir treinando sombra e fazendo footing.
- O Joel é o fiel substituto do Servílio de Oliveira. Ele é muito bom e só precisa encarar a carreira como profissional para se tornar um futuro campeão do mundo - Ralf Zumbano, técnico e ex-campeão brasileiro de boxe.
Tornar-se um profissional de verdade, cuidando-se, treinando, alimentando-se, preocupando-se apenas com o boxe é o que Joel quer, mas não sabe como conseguir. Tem mulher, uma filha para cuidar, conta com orgulho que ganha Cr$1.000,00 para fazer uma semifinal e esconde quanto recebe porm 30 dias de trabalho, correndo o risco de um acidente igual aos que já viu acontecer em seus oito anos de estrada.
– Já pensei em largar o emprego para ficar apenas com o boxe, mas os amigos me aconselham a não fazer isso. A gente pode lutar todos os meses, mas também pode dar o azar de ficar parado por muito tempo. Como é que eu pagaria o leite da Maria Helena, minha filha de um ano, aquela joia que tenho lá em casa? Ela come mais que eu e minha mulher juntos.
Dona Teresa Maria de Jesus Amaral Correa faz muito bem o arroz, o feijão e a verdura que Joel gosta de comer todos os dias. Carne ele só pode comprar uma ou duas vezes por semana e nunca tomou vitamina ou cálcio para se fortalecer um pouco mais.
- Já me disseram que isso é bom e pretendo tomar quando for lutar pelo título dos moscas.
Bem cotado
O título está vago e o outro candidato, Pedro Domingos, dificilmente ganhará condições para vencê-lo Quando chegar ao título de campeão brasileiro, ganhando no ringue contra qualquer outro pretendente ou apenas pelos méritos até agora alcançados, Joel talvez consiga ser mais profissional do que normalmente o boxe brasileiro permite a qualquer um que não se chame Éder Jofre.
Sergipano de Noss Senhora das Dores, cidadezinha que não conheceu direito, porque a família mudou-se para o Parque Peruche quando ele - penúltimo dos doze filhos, cinco homens - tinha apenas dois anos de idade, pobre como quase todo nordestino que abandona a terra seca para tentar a sorte na cidade grande do sul, Joel Correa aprendeu a ver no boxe a esperança de melhorar a vida que o garoto sem estudo, sem padrinho, não pode tentar por outros caminhos.
- Lá em cima do ringue sou eu e ele. Quem puder mais chora menos. Lá não tem rico nem pobre. Tem o bom, o melhor e o que se mostrar preparado para vencer. E é isso que eu resolvi ser depois que passei a treinar com o Pedro Galasso e depois que recebi ajuda do Oscar Pedroso Horta. Ele pagou todas as despesas que tive para o doutor João de Vicenzo cuidar da minha mão e a Bel-Boxe sempre me escala para poder ganhar o dinheiro das prestações.
Antes disso, até dois anos atrás, Joel Correa estava no boxe apenas por brincadeira. Não treinava como devia, não cumpria as ordens, não sabia que na sua mão esquerda, perfeita quando desfere hooks no fígado dos adversários, pode estar a força de um campeão.
Diferente da maioria dos lutadores que buscam o boxe depois de ver a luta de um campeão, Joel foi levado por um amigo desconhecido, sem nunca ter lido sobre Paulo de Jesus, visto fotografias de João Henrique ou assistido a alguma luta de Éder Jofre. A primeira e única vez que viu Éder foi a menos de um mês, contra o japonês que quase o derrubou.
- Anes eu não tinha o menor interesse, e agora, quando não estou trabalhando, prefiro ficar em casa com minha mulher e com a minha joia. Lá em casa somos sempre três crianças. Gosto de ver TV.
(continua amanhã)

