27
de
maio
Nos tempos em que eu gostava de boxe II
MANOBRAS PARA SER CAMPEÃO - final
Aos 16 anos
Joel ficou sabendo que existia um esporte chamado boxe em 1965, quando tinha apenas dezesseis anos e havia parado de vender doces na rua (e apanhar em casa quando sua mãe, dona Neíldes, descobria a falta dos que ele comia) para trabalhar de carregador na Sorocabana. Um amigo chamado Luís o levou até a academia da Caracu, mostrou tudo, mas ele só voltou um mês depois, sozinho e sem material de treino.
- Fui para treinar, o técnico Manoel Soares deixou e só paguei um mês de mensalidade. Depois ele disse que eu tinha futuro e não precisava mais pagar.
Nesse tempo, Joel treinava de calça, sem camisa e descalço. Só vestiu calção feito de saco depois que seu nome saiu no jornal, escalado para o Torneio de A Gazeta Esportiva, e que ele foi correndo mostrar para os pais, sem esperar ouvir a bronca e o choro dos dois que não queriam "vê-lo machucado".
Ganhou a primeira, perdeu a segunda. No ano seguinte foi vice-campeão paulista, perdendo para Arlindo Borges, campeão brasileiro dos galos. Fez dezoito lutas, já queria ser profissional, ganhar o dinherio que não sobrava em casa. Não apareceu para disputar o Torneio dos Campeões, foi suspenso por um ano, conseguiu passar a profissional, ficou mais um ano sem lutar e treinar e só voltou firme e disposto em maio de 71.
O que falta
- Uma pena, porque ele é bom demais. Só precisa treinar e ser aprimorado (Ralf Zumbano).
- Eu não tinha entusiasmo, não ganhava nada, não tinha tempo para treinar e preferia ir namorar minha mulher. Eu a conheci no segundo dia de trabalho, no terceiro falei com seu pai, namorei dois anos e casei.
Ganhou de João Sátiro, de José de Sousa, de Severino de Souza. Contundiu o tendão da mão direita, que um massagista não conseguiu curar com ponta de fogo e que João de Vicenzo endireitou com uma série de injeções. Agora, liberado, ele já está éscalado para fazer a semifinal de Éder Jfre, no dia 29 desse mês.Um passo para o título brasileiro e meio caminho andado para o sul-americano.
Muito humilde, sempre falando da mulher e da filha (’minhas joias"), pedindo para falar bem de dona Silvana, a dona da casa onde mora e que sempre empresta algum dinheiro, quando as coisas apertam, Joel parece um homem feliz e esperançoso.
- Tem muito cara casado há mais tempo que eu e ainda não botou em casa tudo que já possuo.
Ele tem máquina de costura, televisão, fogão e "até um sofá bem bacana, onde brinco com minha filha". As prestações são pagas com o dinheiro do boxe, pois o que ganha na estrada mal dá para comer e pagar o aluguel da casa.
- Mas um dia chego lá.Tenho só 23 anos e quando ganhar o título brasileiro passarei a finalista. Aí vou ganhar para comprar uma casa. A gente tem de acreditar na força da gente e estar preparado para tudo.
O bom boxe
Boxe para chegar lá Joel Correa tem. Ele é rápido, valente, sempre procura a briga, não tem medo dos adversários que lhe arranjam e já aprendeu que nunca mais deve parar de bater quando seu adversário estiver grogue, como aconteceu uma vez contra Paulo Gois. Ele bateu no fígado, cruzou no queixo, viu o adversário caindo, parou e depois ouviu uma bronca que nunca mais esqueceu.
- Seu Galasso me ensinou que devo continuar bom, humilde, brincalhãom fora do ringue, mas que lá dentro sou eu o o outro. Que se eu não derrubá-lo, ele me derruba.
Falta a boa carne, a verdura fresca, a fruta, a vitamina, o sono da noite, trabalhar só de dia. Falta alguém ajudar Joel a ser transferido para outro posto onde trabalhe apenas de dia. Isso ele acha que acabará conseguindo. Até lá estará correndo entre vagões, trabalhando das 6 da noite até as 6 da manhã, dormindo até as 2, brincando com a filha, treinando na academia, andando até o serviço para continuar se movimentando, sentindo falta da vitamina, quebrando o galho quando trabalha à noite e precisa sair para lutar.
-Já aconteceu três vezes. Eu tinha luta marcada e estava escalado para trabalhar. Fui lá, trabalhei até as 8 horas, dei uma fugidinhha até o ginásio, ganhei a luta, comi um sanduiche e voltei correndo antes que desse qualquer ganho, e para ver meus companheiros perguntando como foi, se eu me machuuei. Coisas assim…


Comentário por gilberto maluf — (11:18)
Trajetória e narrativa bonitas. Comecei a lembrar …… Pedro Galasso, João de Vicenzo, Eder Jofre. Será que Paulo de Jesus, Fernando Barreto, João Henrique também tiveram dificuldades?
Lembro da Forja do clube CMTC, conheci o Crispim de Oliveira, acho que era esse o nome.
Eder Jofre x Ernesto Miranda, passava na TV.
Mas confesso que não lembro de Joel Correia.
Abs
Comentário por aquinojmde — (13:01)
Paulo de Jesus era um craque. Sofreu um acidente de carro perto do Parque Antártica e precisou encerrar a carreira. Fernando Barreto sofreu acidente cerebral durante uma luta e também precisou parar. Ficou com os movimentos prejudicados. João Henrique casou com a filha do Geraldo Blotas, teve um apoio maior da famÃlia do sogro e faleceu num acidente de trêm quando voltada de Mori das Cruzes, onde estudava Direito…
Comentário por aquinojmde — (13:08)
Crispim Oliveira era bom, mas o melhor Oliveira - não eram parentes - foi o ServÃlio, um craque. Única medalha de boxe do Brasil em Jogos OlÃmpicos - México-68. Teve a retina do olho esquerdo deslocada e precisou parar. Foi proibido de lutar aqui e ainda rez algumas lutar, fora do Brasil, lutando, e ganhando, com uma vista só. Hoje é técnico e empresário de boxe.
Comentário por aquinojmde — (13:16)
Nos anos 73/4 escrevi uma série de depoimentos do Éder ensinando a arte de boxear - com desenhos dele (era bom).Ele dizia gostar de enfrentar adfversário como o argentino Ernesto Miranda, “que pulava como um tisil”, fugindo dos socos. Era difÃcil acertá-lo, mas quando acertava, era lona. Fizeram grandes lutas. Acompanhei toda carreira do Éder e uma vez por mês, no mÃnimo, ele liga aqui em casa para bater papo. Ganhei dele um par de luvas que usava nos treinos quando disputou o tÃtulo com José Legra, em BrasÃlia. Minha mulher sumiu com ele e quase a esgano. Logo vou colocar aqui a briga que time com os empresários dele por aquela luta. E com a direção da revista. abrs
Comentário por gilberto maluf — (13:55)
Pulava como um tisil……grande Ze Maria, também no boxe.
Logo que cheguei no Rio frequentei a academia do Gaucho, ex-lutador de boxe, ex-jogador de futebol de clubes como o São Luis de IjuÃ, etc.
Ele tem boa memória para o esporte em geral e ele gostava de conversar comigo. Algumas coisas do Rio Grande do Sul eu comentava com ele e ele falava que nem em Porto Alegre hoje encontraria alguém para conversar sobre o assunto.
Mas ele só aceitou depois de duas respostas que dei a ele.
Na primeira, ele me indicou um prédio no fundo da academia e falou assim: aqui morou um ex-atacante do Fluminense e Santos. Matei na hora. Falei: Gonçalo! Olhou para mim e falou….pôrra!
No futebol já estávamos conversados.
Sobre boxe, quando ele conversava com um ex-boxeador que tem uma espécie de escola de aprendizado de boxe no morro do Pavão/Pavãozinho, eu também conversava um pouco, mas normal.
Até que ele foi falar de luta livre e fui dar um palpite. Ele ficou bravo comigo, que daquilo eu não entendia nada. Mas retruquei falando que vi o rei do braço de ferro, Miroslav, do Koitia, das lutas de sábado onde tinha o Gatica, o Fantomas ( acho que era o Omar Fontana ). Depois disso me apresentou um ex-treinador do Fluminense das antigas, que conheceu o futebol do interior de SP nos anos 50, tempos de Gatão, Cardinali do XV de Piracicaba.
Mas tudo isso porque na época nós garotos não tÃnhamos TV, vÃdeo game, tantas facilidades eletrônicas e econômicas .
Então não é galardão nenhum ter boa memória para o esporte, era obrigação, só fazÃamos e gostávamos disso.
Abs
Comentário por aquinojmde — (18:21)
Para chegar à academia do Kid Jofre, na Santa Ifigenia, subia-se 38 degraus (haha). Em 68, fui a Buenos Aires cobrir uma luta do João Henque x Nicolino Loche - bailarino, sem pegada, ganhou por pontos com um único braço a parir do 7o assalto). Lá, fui convidado para um programa tipo Almoço com as Estrelas e me colocaram na mesa do Carlos Monzon - um mostro sagrado do boxe, campeão de fato e de direito. Quando me deram a palavra…
Comentário por aquinojmde — (18:28)
.. lembrei-me do Paulo Sacomã diante de um português (esqueci seu nome), que parou de bater quando viu que ele estava entregue. O árbitro mandou que continuase, mas Sacomã se negou e acabou desclassificado. Aà perguntei ao Monzon o que ela faria num situação igual - quae apanhei do seu técnico e do apresentador. De cara feia, disseram que aquilo não era coisa que se perguntasse a um lutador… e o microfone não chegou mais perto de mim.
Testemunhei três minutos de um jogo do XV de Piracicaba, ordenado pelo TJD. O jogo tinha sido suspenso aos 42 do segundo tempo e mandaram que fosse completado, sem torcida. Fui a Piracicaba e fiquei arrepiado vendo bandeiras do XV passarem por cima do muro alto do estádio, erguidas por longos bambus, do lado de fora, com a torcida gritando para incentivar o time. Grande Nhô Quim, naquela época.
Comentário por gilberto maluf — (11:12)
Pelo menos os 38 degraus serviam para treinar as panturrilhas, rs. A luta do João com o Nicolino deve ter sido no Luna Park, certo? Eu tenho uma idéia, deve ser errada, da entrada deste ginásio como sendo daquelas entradasdos ginásios americanos dos anos 30, com corredores escuros. Faz parte da nostalgia.
Eu também não bateria mais num lutador já ” sonado ” e também faria a pergunta que você fez ao Monzon.
Tem gene muito marrenta vivendo (?) por aÃ.
Comentário por aquinojmde — (11:42)
O Luna Park, no inÃcio da Corrientes, que não tinha, nunca teve, mas agora tem o número 348 ((montaram lá um cabaré para matar a curiosidade - e tomar grana - dos brasileiros - ainda está de pé. Não sei se fizeram outra arena mais moderna - faz tempo que não vou a BUA - mas o Luna era bonito, imponente. Na época tinha uma academia de boxe no lado sul, com lojas que vendiam material esportivo. O boxe era mesmo a nobre arte, mas acho que nem lá sobrevive. Estou procurando o nome do português que o Sacomã negou continuar batendo. abrs
E deu Timão ontem, né?
Comentário por gilberto maluf — (13:08)
No seu outro comentário, caindo no segundo tempo, está mesmo faltando gás no segundo tempo , parece ser mais aqui no Maracanã, campo maior, pressão idem, acho eu.
É a sina de corintiano, tudo é mais difÃcil, podia ter feito uns dois gols e no fim quase toma os dois.
Peguei o Metrô de volta e saltei na estação Siqueira Campos. Lá tem um bar tradicional e um sujinho de esquina e como o sujinho era mais perto fui nele para uma gelada, estava até precisando. Chegando lá perguntei o resultado de São Paulo x Cruzeiro, e só fiquei sabendo ali, no Maraca não informaram. Foi só por o pé no Bar que caiu um toró daqueles. Inundou a rua Toneleiros, aquela do atentado a Carlos Lacerda. Aà quando a agua desce mostra a sujeira e o cheiro imundo de rato que prolifera nos esgotos deste bairro. Muita gente, muita sujeira também.
Comentário por JOTA CHRISTIANINI — (14:02)
quem deixou de bater naquele português, na luta do pacaembu foi o Paulo de Jesus.
ainda tramutizado pela tragedia que vitimou o Milton Rosa, (Paulo o nocauteou e ele bateu a cabeça no ringue ficando ocm sequelas) seu companheiro de academia, smj. o Palmeiras, Paulo de jesus recusou-se continuar batendo no portugues e perdeu a luta.