Zé Maria Aquino

José Maria de Aquino iniciou com o JT, 66. Prêmio ESSO 68, com Michel Laurence. Placar 70-82, 2 Prêmios Abril. Estadão 82-90. TVGlobo, chefe redação-SP, comentarista Copa-82. Consultor Sportv/Arena. 3 Olimpiads, 4 Mundiais. Tv-Terra e RBTV

23

de
junho

O dia em que fiz corintiano chorar I

Vez por outra, para colocar o rascunho em dia, folheio a coleção da revista Placar. E de quando em quando deparo com trabalhos que guardam uma história. Como esse, de agosto de 74, quando bati um papo com Rivelino e ele me disse:"Só quero ser campeão no Corinthians".

"Eu entendo todos eles, os que me querem fora do Corinthians e os que torcem para que eu continue lá, jogando por muitos anos. Acho que os entendo melhor do que eles me entendem.  Entendo quando me aplaudem e quando me vaiam, quando gritam contra mim, quando reclamam que não faço gols, que não luto, que não quero nada. Uma torcida como a do Corinthians, que pega trem ou ônibus, para enfrentar sol ou chuva na geral, que depois de tantos anos ainda se mantem fiel, essa torcida tem o direito de gritar contra a derrota e de reclamar contra o zero a zero. Entendo e aceito essa gente. Podem não acreditar, mas eu sou muito parecido com ela.

"Sei que lá de longe ela não pode entender que tem dia que não dá pra gente fazer tudo que deseja. A gente sempre quer, mas nem sempre dá. Às vezes, a gente quer meter uma bola para o Vaguinho, pega errado e acaba deixando o Lance cara a cara com o goleiro, prontinho para fazer o gol. Nese dia a gente logo sente que tudo vai dar certo. A galera levanta, grita e não quer saber por que deu certo. No dia da vaia ela também não quer saber por que deu errado. A torcida está errada? Não, ela está certa.

"O negócio é que eu sou o mais marcado. Tudo é o Rivelino. Eu jogo no meio do campo, mas eles reclamam que não faço muitos gols. Porque recebi a graça de jogar bem, acabei sendo o centro das ações do time. Quando as coisas apertam, os companheiros jogam a bola para mim. E aí meus problemas aumentam. Não quero ser mais do que ninguém, quero ser útil ao clube, servir à torcida, acreditem ou não. O time não pode depender só de mim. Futebol são onze, é conjunto. Não é como no boxe ou no tenis, onde uma só pessoa pode resolver tudo. É coletivo.

"Não sou nenhum bobo. Tenho um nome a zelar e não deixaraia de fazer o gol se pudesse fazê-lo. O caso é que para fazer gols eu precisaria jogar mais lá na frente. Mas, aí, quem jogaria mais lá atrás?

Isso tudo me deixa encucado. Eu penso nessas coisas. Não sou de fazer média e acho que todo mundo já sabe disso. Sou um pouco tímido, não gosto de arranjar deculpas. Falo pouco desses problemas, de minha encucação, mas sei o que gostaria que acontecesse em minha vida de jogador

"Eu gostaria de ser campeão paulista pelo Corinthians. Não quero ser por outro.  É um título que me falta e que não quero ganhar com outra camisa. É isso que eu escolheria se pudesse escolher em minha vida. Não trocaria esse título por nenhum outro. Gostei muito de ter ganho aquele título no México e fiz tudo pra ganhar a Copa do Mundo na Alemanha. Mas, se me fosse possível escolher, eu não pensaria duas vezes. Não falo isso sem sentir, não. Olha só como meu braço está arrepiado. Eu me emociono facilmente.

"Até já sonhei com esse título. Não estou dizendo que vivo sonhando com isso todos os dias. Acontece algumas vezes, quando o time vai indo bem e a gente tem chance de chegar lá. Nunca me preocupei contra que time a gente ganhou o título. Só me lembro que, em sonho, é sempre um dia de muita festa. Aquela gente toda gritando, pulando, fazendo,loucuras. É uma gente sofrida que merece uma festa como essa que aparece nos sonhos. Me vejo carregado, puxado para todos os lados. Vejo a galera contente, rindo. E é a mesma gente pobre, sofrida que tem ido lá para aplaudir quando ganhamos e para vaiar quando perdemos. Gente que entendo, porque é bem como eu sou. No fim da festa sempre sinto vontade de me meter num buraco, terra a dentro. Não dá para explicar como é tudo aquilo. Levanto cansado.

Mas não seria a mesma coisa ser campeão paulista por outro time. Tem que ser pelo Corinthians. Talvez porque a gente está esperando esse dia há quase vinte anos. Também não adianta nada ser campeão brasileiro. Tem que ser paulista. Se eu parar sem esse título, vou sentir um vazio na minha vida de jogador. Não vou me sentir totalmente realizado.

Acho que nem todos acreditam em mim quando falo essas coisas. Falam que não ligo para nada, que sou nervoso, que só penso em dinheiro, que já sou rico. E falam até que sou palmeirense.  Eu já fui torcedor do Palmeiras e nunca escondi isso de ninguém Já sofri vendo o Palmeiras perder e já fiquei sentadinho num canto do campo do Banespa com os olhos grudados no que Chinezinho, Fiume, Julinho, aquela turma toda fazia com a bola…

Continua)

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7 Comentários »

  1. Comentário por Ademir Tadeu — (19:00)

    Eu também tenho grande prazer em folhear revistas antigas. Sou muito saudosista, coleciono muita coisa sobre futebol do passado. Ás vezer nos deparamos com matérias excelentes, como esta que o senhor descreveu. Abraços

  2. Comentário por aquinojmde — (14:21)

    Que isso, Ademir, não foi o senhor quem escreveu essa reportagem, fui eu mesmo. rrss.
    Faz tempo, agosto de 74, pouco antes da derrota para o Palmeiras na final do Paulista, que acabou mudando o destino do Rivelino, levando-o ao Fluminense e de lá ao mundo árabe. Ficou mais rico, com todos os méritos - às vezes converso com ele no Centro Esportivo que tem aqui perto - e se aposentou sem o título que tanto queria. Não chora por isso, mas acho que naquele tempo falava a verdade. abrs..

  3. Comentário por Alexandre Giesbrecht — (16:11)

    Essa é aquela entrevista que o jovem Juca Kfouri foi junto?

  4. Comentário por aquinojmde — (20:02)

    Foi sim. O Rivelino estava inspirado naquele dia - ele que era de pouco falar. abrs.

  5. Comentário por gilberto maluf — (20:09)

    Depois o Rivelino vibrou muito sendo campeão pelo Fluminense em 1975.
    Quando vejo os tapes do Riva fico impressionado como a gente não lhe dava o merecido reconhecimento.
    abs

  6. Comentário por aquinojmde — (20:18)

    Nunca fui de vestir camisa de algum time, de chorar ou me desesperar em derrotas. Torço, brinco com os amigos mais chegados, vibro, quando em casa, mas fico por aí. Sempre fui assim, mesmo antes de me tornar jornalista e ver as coisas - uantas coisas - de perto. Aquela entrevista foi uma das raras em que senti o entrevistado falando o que sentia. Talvez porque Vicente Matheus já ameaçava não renovar seu contrato - como fez com Luiz Carlos - e a torcida, entrando na do Matheus, ameaçava Rivelino.

  7. Comentário por aquinojmde — (20:21)

    O clima era tenso no PSJ. Agosto, perto da decisão contra o Palmeiras, todo mundo dizendo que aquele ano estava armado para o Corinthians - ouvi mil vezes isso, de jogadores, em Águas de Lindóia, onde acompanhei o time. Rivelino sentia que para ele era o tudo ou nada. Acho que Matheus o rifaria mesmo com o título. Ele queria baixar a folha, elevada por Vadi Helu. Rivelino e Luiz Carlos, na opinião dele, ganhavam muito. Foi um papo legal, em pé, junto ao muro. Com ele dava para conversar assim. abrs..

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