24
de
junho
O dia em que fiz corintiano chorar II
""Só quero ser campeão no Corinthians", Rivelino
""…Eu era vidrado e não perdia um treino deles lá no Banespa. Mas depois me desiludi. Fui treinar no Parque Antártica e não me deram a menor atenção. Lá, naquela época, só jogavam no juvenil os filhinhos de papai. Eles passavam perto de mim rebolando, peito empinado, sem me dar a menor atenção. Iam todos de carro, bonitinhos. No Corinthians foi diferente. Eu era mais inibido ainda do que sou, mas fui logo bem recebido. O Mendes, esse que joga na Portuguesa, me chamava e me dava força. Aqui me receberam de braços abertos.O Corinthians é minha segunda casa. Recebo meus salários e peço bastante para reformar porque sou profissional, porque acho que mereço e porque me podem pagar. Ser corintiano como eu sou, gostar do Corinthians não significa jogar de graça. Nesse ponto, tenho minha consciência tranquila. Fico encucado quando perdemos, fico triste quando vejo que mais um ano está indo sem que o título possa ser ganho, mas durmo tranquilo.
A torcida fica triste e sofre depois de uma derrota, mas eu acho que fico mais louco do que ela. Intimamente sou um jogador triste. Eu sou o mais gozado pels ruas. Os companheiros de outros times e da Seleção brincam muito com esse negócio. Eu faço de conta que não ligo, mas por dentro sinto vontade de explodir. Às vezes sinto medo da torcida, porque ela sofre tanto que pode ficar perturbada a ponto de fazer alguma coisa contra mim. E eu seria capaz de fazer muita coisa para vê-la feliz. Agora mesmo estão falando em diminuir o bicho, em não pagar nada por empate, coisas assim. Pois se alguém me garantisse que o Corinthians seria campeão este ano, , eu dispensaria os bichos, as glórias, parte das luvas, o que for preciso. Faria qualquer coisa, desde que não prejudicasse ninguém. Sou católico, respeito muito as pessoas, não aceito fazer nada que faça mal a um semelhante, mas jogaria com arruda na chuteira, acenderia velas, faria essas coisas todas se me garantissem o título. É por mim também, pelos meus filhos, pela história, pelo que será repetido até o fim da vida, mas é principalmente pela torcida, pela galera, que eu quero ser campeão paulista pelo Corinthians.
"Quando tenho de renovar contrato fico com medo de precisar sair do Corinthians. Sei que isso nunca acontecerá porque eu não quero, porque brigo para continuar, mas também sonhei com essa hipótese. Não foi bem um sonho, foi um pesadelo. Acho que não saberei vestir outra camisa. Se isso acontecesse e eu marcasse um gol contra o Corinthians, não saberia comemorar. Acho que ficaria de costas, triste e pediria desculpas à torcida. Tenho muito medo de sair do Corinthians.
"Outro dia perguntei a um jornalista por que ele só falava de mim e ele respondeu que eu dou IBOP e que se ele falar de outros, bem ou mal, ninguém vai querer ouvir. Entendo a do jornalista, também. Só que, à vezes ele escreve o que não é e o torcedor, depois de ler e acreditar, vem cobrar de mim. Respeito todo mundo, mas esse negócio de falarem muito de mim acaba jogando em minhas costas um fardo de responsabilidade muito grande. Não quero ser o maior de nada. Quero é ganhar um título paulista pelo Corinthians, sem precisar ser ajudado por ninguém, nem por juiz, nem por dirigente, por ninguém. Quero é mostrar que sou corintiqno como todo mundo, que sofro como a galera, que não nasci rico, que gramei muito, que durante dois anos peguei duas conduções (ônibus) para ir treinar. Quero que saibam que eu entendo a torcida quando ela me vaia, da mesma forma que a entendo e gosto quando ela me aplaude, quando ela quer sair me carregando. Quando parar de jogar eu vou estar misturado com ela. Eu sou Corinthians (fim)

