29
de
junho
A volta da democracia
Por várias vezes conversei com jogadores e ex-jogadores sobre precisarem levar puxões de orelhas de treinadores, o que chamo de "vida de mulher de malandro" e na esmagadora maioria das vezs eles acharam que as broncas são necessárias. Quem mais me causou surpresa foi Casagrande, um dos líderes da chamada Democracia Corintiana dos anos 70/80.
Acredite Válter Casagrande, ele mesmo, disse-me que jogador precisa levar bronca para não sair da linha.
Hoje, citando o Barcelona, que não se concentrou e ganhou os títulos espanhol, da Copa do Rei e da Copa dos Campeões este ano, Ronaldo acaba de criticar as concentrações que, disse, não permitem aos jogadores passarem mais tempo com seus familiares.
Mesmo lembrando que ele não é exatamente o melhor exemplo de homem caseiro, que não se envolve em encrencas nada recomendáveis a um atleta, ainda mais na sua situação, com sua fama, aprovo cem por cento sua proposta de abolir as concentrações, naturalmente que dando aos jogadores ampla liberdade, assim como cobrando deles total responsabilidade por seus atos.
Pelos anos 50, o São Paulo aboliu a concentração - talvez por medida de economia, já que construia o Morumbi. Entre 22 e 24 horas, um funcionário do clube passava nas casas dos jogadores para que assinassem o ponto na véspera dos jogos. E muitos, naturalmente, saiam de casa assim que o funcionário virava a primeira esquina.
Quando Ronaldo agiu em desacordo com as normas estabelecidas pelo Corinthians, visitando a noite de Presidente Prudente e se irritando com os porteiros do hotel que não permitiram a presença de pessoa estranha em seu apartamento, a direção do clube prometeu multá-lo. Se multou ou não multou, ninguém sabe, ninguém viu.
Nem a eventual e prometida multa, por mais elevada que fosse, fez - ou teria feito - diferença em sua conta bancária. Talvez, quem sabe?, tenha feito na sua forma de pensar, já que deseja mais tempo para a família e não para curtir a noite - o que tem todo direito de fazer.
O fim da concentração, que em algumas situações, sabe-se, serve melhor aos "propósitos" do que o direito de ficar em casa, vigiado não pelo amigo segurança, mas pela "patroa" e o nenem que chora, serviria para aumentar a responsabilidade dos jogadores, que devem cuidar do físico, e, numa época de clubes cada vez mais no vermelho, ajudá-los a fazer economia.
Algo errado? Só se for o medo de punir, de verdade, o jogador que não aproveitasse o tempo para curtir a família - ainda que fosse pai e mãe - e decidisse curtir a loira e algumas loiras. Nesse caso, a fiscalização, não nas bocas, mas no campo, seria feito pela torcida. Das arquibancadas.
Seria a volta da democracia, não necessariamente apenas a corintiana, nem nos moldes daquela.

